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Moda e ressignificação

Seis looks do Afro Fashion Day são criados com tecido reutilizado. Sustentabilidade também é tendência

Transformar histórias, ressignificar trajetórias, mostrar a uma pessoa negra que nem sabia que podia trabalhar com moda que, sim, ela pode. Tudo isso é forte e rotineiro para o Afro Fashion Day desde a sua primeira edição. Num convento escondido numa ruazinha da Boa Vista do São Caetano, cinco estilistas e cerca de sete costureiras levaram isso tudo a um outro nível ao transformar uniformes de funcionários e funcionárias do Grupo Boticário em looks que serão utilizados em um dos blocos do desfile do AFD no próximo mês.

Lourrani Bass, Gefferson Vila Nova, Sillas Filgueira, Filipe Dias e Fagner Bispo foram os estilistas que entregaram suas ideias às mãos talentosas de mulheres como Estela Maria, costureira à frente da Cooperativa Constelação das Artes, do próprio bairro de São Caetano.

Trabalhando no Afro há cinco edições, o estilista Filipe Dias afirmou que nunca tinha trabalhado dessa maneira e ficou feliz com o resultado: ele criou dois looks usando e abusando da técnica de patchwork, a mesma daquela clássica colchinha de retalhos que nossas avós fazem.

“Um aprendizado enorme. Não tem nem como explicar. Aprendi muito trabalhando. Foi indescritível. É muito bom ver nosso produto pronto”, contou Filipe, que desenhou uma bermuda e um top com estética pensada nos movimentos negros dos anos 1970.

As peças que chegaram são das mais variadas: dois pares de sapatos, camisas de diversas cores, alguns blazers, além de calças do tipo sarja e oxford. Fundadora da Cooperativa, Estela Maria Conceição não conhecia o Afro Fashion Day, mas ficou contente por ser apresentada a um evento que tem um conceito bem semelhante ao seu trabalho: o de ressignificar. 

A oficina levou dois dias. Curador do Afro Fashion Day, Fagner Bispo explicou que o primeiro dia da ocupação foi mais corrido, com a equipe correndo para transformar todas aquelas roupas em matéria-prima antes de executar a confecção das roupas, que já estavam com as ideias pré-estabelecidas na cabeça de cada um dos estilistas a fim de agilizar o processo. 

Em 2021, o Black Power será o tema do Afro Fashion Day, que sempre leva uma narrativa como elemento central para guiar os criadores. No ano passado, por exemplo, foi o dendê.

Se engana quem pensa que, por se tratar de roupas feitas sem tecidos novos, os looks não são de qualidade. Muito pelo contrário. Fagner Bispo e o estilista Gefferson Vila Nova explicam que é possível montar roupas usáveis, com aquela carinha de roupas de loja, aproveitando esse material. Essa técnica tem até um nome chique: upcycile, termo em inglês que se refere à arte de dar vida e utilidade a materiais que seriam descartados. 

“Eu trabalho com isso desde 2003 e a grande ideia é dar uma nova vida a esse material. Até o que sobrou daqui pode ser utilizado e sugeri fazer um tapete. O fato é que conseguimos mostrar que são produtos comercialmente viáveis e vestíveis, não algo feito de qualquer jeito”, disse o estilista, que fez um vestido só com barras de calça.

Quem também utilizou barras de calça como matéria-prima foi a estilista Silla Filgueira, baiana que, neste ano, foi destaque em revistas especializadas como Elle e Marie Claire. Conhecida por levar afeto e muita energia em suas roupas, ela desenhou um cropped e uma saia com bastante movimento.

“Foi tudo feito com perna de calças oxford e algodão. Comecei fazendo um patchwork de um lado e o finalzinho fiz com peças de calças inteiras. Foram vários remendos, usei o cós da calça e ficou assim com bastante movimento, bem anos 1970. Foi a primeira vez que fiz um trabalho assim, vim a convite de Fagner e foi tudo muito interessante, um novo aprendizado”, disse Silla.

O ponto de ligação entre o Afro e a Cooperativa é a estilista Lourrani Baas, fundadora da Liga Transforma, que tem ações permanentes bem semelhantes a essa ocupação, como a Oficina Troca de Sabores – foi por lá que conheceu dona Estela e a Cooperativa.

Nos últimos três meses, a Liga arrecadou mais de uma tonelada de retalhos e coloca em prática o conceito de moda sustentável, que também é uma porta de incentivo ao empreendedorismo. Estela, por exemplo, tem 60 anos e lidera uma cooperativa formada por duas costureiras e outras cinco artesãs, transformando esses retalhos em roupas e acessórios que podem tanto ser utilizados no dia-a-dia, como numa passarela importante tipo o Afro Fashion Day. 

Alguns looks criados (todos serão revelados na passarela do AFD, em novembro)
Filipe Dias: Bermuda e top agênero feitas a partir de camisas e calças
Gefferson Vila Nova: Vestido montado somente com barras de calças
Lourrani Baas: Calça Pantallona colorida e top plus size feitos com patchowork e reutilizando camisas
Silla Filgueira: Vestido e top preto com patchwork

O Afro Fashion Day é um projeto do jornal Correio com o patrocínio do Hapvida, apoio do Shopping Barra e apoio institucional do Sebrae.